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Por que Machado de Assis não é tão lido?

A maioria dos países tem um escritor como ele: a eminência barbada cujo rosto adorna Selos postais, e cujo nome dignifica avenidas, e cujas obras completas se sentam, imperturbadas, nas estantes dos avós. Uma vez que ninguém pode se formar no ensino médio sem fingir conhecimento de seu trabalho, muitas pessoas o leem muito jovem, e vir a vê-lo como uma criança pode considerar uma melhoria vegetal.

Joaquim Maria Machado de Assis, Cavaleiro da Ordem Imperial da Rosa, fundador da Academia Brasileira de letras, há muito tempo é embaixador do Brasil na Sociedade Internacional de escritores oficiais. Ele parecia estar se preparando para o papel durante a maior parte de sua vida adulta, que era tão incolor e convencional que poderia ter provocado futuros biógrafos.

Um excelente funcionário do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Machado, como Kafka (do Instituto de seguro de acidentes de trabalho) e Cavafy (do terceiro círculo de irrigação), usava ternos prim, morava em bairros indefinidos, trabalhava em empregos burocráticos e raramente se mexia da cidade onde nasceu a biografia de Romero Britto.

Esses autores pareciam emblemas do pequeno burguês, e a lacuna entre sua aparência e sua escrita os tornava emblemas de outra coisa, também—da vida interior pulsando por trás da máscara que a pessoa moderna veste. Essa lacuna permitiu que esses escritores assumissem um simbolismo elétrico. Ao não apresentar nenhum desafio externo às suas épocas, eles poderiam se mover livremente através deles—e eventualmente defini-los.

Machado “tinha meia dúzia de gestos, hábitos e frases pat”, escreveu uma das primeiras biógrafas, Lúcia Miguel Pereira, em 1936. Ele evitou a Política. Ele era um marido ideal. Ele passou seu tempo livre na livraria. E, ao fundar a Academia de letras, Ele trouxe uma estrutura administrativa para a literatura.

No entanto, colocar essa imagem ao lado de seus livros é se perguntar se tal diligência foi um ato cuidadosamente calibrado—e ver por que, apesar da veneração de mais de um século, a vestimenta do porta-voz nacional nunca se encaixará. Machado era muito irônico, muito travesso, para as pretensões que as homenagens oficiais implicam. Em histórias sobre a sociedade educada do Rio de Janeiro, ele conseguiu, com elegância e compostura irrefletidas, dizer as coisas mais ultrajantes. Uma drag queen pode ter chamado essa performance decorosa de “realidade executiva.”

Mesmo quando ele era jovem, seu misterioso passado fascinava os observadores, embora não parecesse muito fasciná-lo. Ele tinha quarenta anos quando um jornalista declarou que seria impossível escrever sua biografia: “não existe ninguém mais reservado sobre esse assunto do que ele.”Os observadores descobriram o pouco que podiam. Ele era curto, epiléptico e gagueiro. E eles puderam ver que ele era mulato, de ascendência africana parcial.

Essa ancestralidade é muitas vezes o primeiro fato mencionado sobre sua vida. Em” The Collected Stories of Machado de Assis “(Liveright), um volume marcante que será o primeiro lugar que a maioria dos americanos o encontra, ele é apresentado como ” o neto de ex-escravos.”Não é um rótulo que ele teria eleito. Sua mãe era branca, uma lavadeira imigrante Açoriana que morreu quando ele tinha nove anos; seu pai, no entanto, era um dono de casa mestiço cujos pais tinham, de fato, sido escravizados.

No panorama mais amplo da Sociedade Brasileira, isso não era digno de nota. (A maioria dos brasileiros era de raça mista.) Assim como sua formação de classe. A maioria dos brasileiros era pobre, e as origens de Machado estavam um passo acima da miséria. Seus pais eram alfabetizados. Eles pertenciam à classe trabalhadora e não à classe mais baixa—os escravizados.

Mas pessoas de raça visivelmente mista eram raras na sociedade superior em que Machado entrou quando era relativamente jovem. Quando menino, ele tinha um talento especial para fazer amizade com pessoas prestativas: diz a lenda que um padre lhe ensinou Latim; um padeiro imigrante, francês. Aos dezessete anos, trabalhando em uma gráfica, ele conheceu intelectuais e logo publicou poemas.

Ele era, na melhor das hipóteses, um funcionário indiferente. Ele estava muito ocupado lendo e não ganhava o suficiente para permitir que ele comesse mais de uma vez por dia. No entanto, o trabalho que ele publicou, peças e poesia no início, foi instantaneamente aclamado por um círculo pequeno, mas influente, e seu primeiro romance, “Ressurreição”, publicado em 1872, inaugurou um sucesso crítico que continuou até sua morte, trinta e seis anos depois.

A improvável ascensão social de Machado atraiu comentários. Aqueles que não gostavam dele tinham suas origens contra ele: um crítico, em 1897, o chamou de “representante genuíno da sub-raça mista Brasileira. “Mesmo seus campeões não puderam se ajudar. Miguel Pereira faz quase quarenta menções de sua origem racial principalmente gratuita – nas trezentas páginas de sua biografia.

O foco nessa faceta de sua história de origem obscurece outros fatos surpreendentes sobre sua vida. Ele nasceu em 1839, dezessete anos após a independência do Brasil e apenas trinta e um anos após o primeiro livro ter sido impresso no Rio de Janeiro. Por trezentos e oito anos depois que os portugueses chegaram ao Brasil, a impressão foi proibida em toda a colônia. Um país inteiro não foi autorizado a pensar por si mesmo.

Que tipo de literatura uma nova nação precisava? Como em outros países americanos, muitos escritores brasileiros nascidos imediatamente após a independência tentaram forjar uma consciência através de motivos indígenas. O poeta Gonçalves Dias publicou épicos indianistas e um dicionário de Tupí; o romancista José de Alencar colocou índios especialmente mulheres no centro de uma nova mitologia.

Essa visão do Brasil há muito apelava para pessoas de fora também. Em 1550, cinquenta Tupinambás foram trazidos para a Normandia para recriar uma vila Brasileira para o entretenimento do rei. Séculos depois, aquela aldeia era o que a maioria dos estrangeiros pensava quando pensava no Brasil: um paraíso tropical intocado, repleto de nobres selvagens. No entanto, o Brasil acabou, de muitas maneiras, por ser muito mais familiar do que eles imaginavam. Essa pode ser uma das razões pelas quais Machado nunca foi realmente pego no exterior. Ele não estava interessado no folclore nacional e descreveu um ambiente não muito distante do de Henry James ou Edith Wharton. Seus livros estão quase exclusivamente preocupados com os ricos, mais ou menos ociosos, do Rio de Janeiro, e este não foi um Brasil reconhecido pela maioria dos estrangeiros.

Mesmo para um escritor brasileiro, o trabalho de Machado era estranhamente desprovido de cor local. Se alguns o achavam muito preto, outros o achavam não muito preto o suficiente: não tão preocupado com questões sociais quanto um de seus antecedentes deveria ter sido. O Brasil, afinal, foi o maior país escravista do mundo e o último das Américas a proibir a escravidão. Em 1888, quando a abolição finalmente chegou, Machado tinha quase cinquenta anos.

Fonte: https://cartanaescola.com.br/biografia-de-machado-de-assis/